2005-10-26

DEMONSTRAÇÃO e ARGUMENTAÇÃO

" Perelman honrou a retórica situando-a no interior dos quadros da argumentação. Quando uma proposição é sugerida, por uma outra ou pela situação, há argumentação; há demonstração quando tudo quanto faz com que a conclusão se imponha é especificado e torna esta conclusão necessária. Devemos opor aqui lógica e argumentação. A lógica não admite qualquer ambiguidade, e a univocidade, que é a sua regra, não é o facto das situações reais de uso da linguagem. Nestas situações, não se estipula toda a informação, nem as regras segundo as quais é necessário tratá-la. Deixamos aos interlocutores, logo ao auditório, o cuidado de decidir, e até tornar unívocos os conceitos utilizados. É esta equivocidade própria da linguagem natural, que foi a base da má reputação da argumentação, pois, se os termos de uma mensagem são equívocos, nada impede de jogar com esta pluralidade dos sentidos, e de manipular o asentimento do auditório pelo vago e pelo superficial. Esta equivocidade faz não obstante a riqueza das línguas naturais, pois, deixando ao contexto o cuidado de fornecer ao auditório os meios para dividir em favor de um sentido, a linguagem natural é susceptível de uma grande subtileza, quase infinita em vista de toda a situação posível de uso. Face a isto, as línguas formais são pobres, tudo ali deve ser especificado (os axiomas,as regras de derivação, os domínios das variáveis, etc.),e parecem ser totalmente autónomas a respeito dos indivíduos. O discurso formal não é dirigido a ninguém porque é suposto dirigir-se a toda a gente. Ele usufrui de uma evidência que seria irracional ou loucura pôr em questão."
M. Mayer, Lógica, linguagem e argumentação
Ed. Teorema